Reputação+

Da camisa ao escandâlo: a zona de risco dos patrocínios

19 de agosto de 2026

Como os clubes lidam com parcerias duvidosas?

  • 2026 está sendo um ano de patrocínios polêmicos no futebol brasileiro, como já vimos nas edições anteriores do Reputação+ sobre os casos da Copa do Mundo.

  • Uma onda de contratos com plataformas de conteúdo adulto e hubs de apostas colocou a tensão entre reputação e necessidade financeira no centro do debate esportivo.

  • O protagonista dessa conversa foi o Corinthians, que fechou um patrocínio milionário com a Fatal Fans. A iniciativa gerou discussões com mais de 163,7 mil interações no período analisado, de 04/07 a 10/08/2026.

 

Tema da vez!

 

Fatal Fans em campo com o Corinthians

Em 04 de julho de 2026, o Corinthians anunciou um contrato de patrocínio master com a Fatal Fans, plataforma de venda de conteúdo adulto por assinatura. O acordo dá direito à exposição da marca no calção do time profissional de futebol masculino e a espaços nas modalidades poliesportivas do clube.

A parceria gerou forte repercussão negativa: um abaixo-assinado com mais de 40 mil assinaturas, projetos de lei propondo restringir esse tipo de publicidade no esporte e um total de 59,1% de sentimento negativo nas conversas. O pico da discussão ocorreu em 22 de julho, impulsionado pelo tweet da deputada federal de São Paulo, Tabata Amaral, sobre os limites desse tipo de propaganda.

Na tentativa de “blindar” o futebol feminino, o Corinthians proibiu a exposição da marca Fatal Fans no uniforme das atletas e decidiu que o espaço só exibe o slogan “Respeita as Minas”, da campanha de combate à violência contra a mulher.

Diante da enorme repercussão negativa, o clube optou por não se manifestar publicamente, deixando a resposta institucional por conta da própria Fatal Fans. A patrocinadora respondeu que a exposição é apenas institucional, sem divulgação de conteúdo adulto durante partidas ou transmissões e sem o uso de imagem de atletas, e que busca “naturalizar” a presença de uma plataforma de conteúdo adulto no cotidiano dos brasileiros.

 

O Corinthians não foi o primeiro

Em abril de 2026, o Operário Ferroviário Esporte Clube fechou patrocínio com a Fatal Fans, com Andressa Urach, criadora de conteúdo adulto, como embaixadora.

A repercussão foi além da postagem original e, enquanto o engajamento espontâneo no post oficial teve reação mais positiva/bem-humorada, a torcida organizada Expresso Feminino realizou um protesto durante uma coletiva de imprensa. O resultado foi a perda do patrocínio da empresa Joka Transportes e a saída da diretora do clube, Mônica Quadros.

Apesar dos desdobramentos, o Operário manteve o patrocínio e não houve pausa para reavaliação.

 

Nem todo clube fica sem reação

Em junho de 2026, a Polícia Federal apontou a Blackbox, hub que representava mais de 30 casas de apostas, como parte da estrutura financeira investigada na Operação Narco Fluxo. No dia 10/06, o Rio Branco Atlético Clube (ES) rompeu o contrato de patrocínio com o hub, afirmando ter feito análise de compliance prévia sem qualquer informação que desabonasse a patrocinadora.

O rompimento rápido do contrato e o timing do anúncio, às vésperas do jogo decisivo contra o Porto-BA, impediram que a marca da Blackbox estivesse na camisa do time na partida mais importante da temporada. Com isso, o clube reduziu o risco de associação direta entre o escândalo e seu momento de maior visibilidade.

 

Ponto de Vista LVBA
Gisele Lorenzetti, CEO

Corinthians, você estava indo tão bem….

Era uma vez um clube de futebol, com históricas vitórias tanto no time masculino como no feminino. Em 2018, este clube cria o slogan #RespeitaAsMinas e a expressão toma as ruas. Inicialmente, a expressão era uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher mas, dado o rápido engajamento dos torcedores, passa a ser uma assinatura. Afinal, o time feminino do clube somava vitórias.

No mesmo ano, o mesmo clube lança a expressão #AsBrabas para exaltar a postura imbatível e a garra do time feminino.

Ambas as ações mostram coerência e propósito: tudo a ver assumir a defesa das mulheres quando, de fato, há ações e investimentos no seu elenco feminino.

Tudo ia bem, até que em abril de 2023, o clube contrata como técnico Cuca que, em 1990, foi condenado pela Justiça Suíça, juntamente com outros jogadores, pelo estupro de uma adolescente de 13 anos, ocorrido em 1987.

A contradição custou caro. Uma semana de indignação e de ataques ao clube pela torcida e opinião pública. Finalmente, Cuca pede demissão e o clube não assume nada, apenas faz uma postagem no Instagram: “Desejamos ao Cuca e sua comissão técnica sucesso na sequência da carreira”.

Agora vem esta questão: patrocínio de um site de conteúdo adulto.

Que bela aula de ausência de propósito.

Entre um erro aqui, um deslize ali, o Corinthians mostra o que de fato escolhe defender quando ninguém está filmando o discurso.

#RespeitaAsMinas foi bandeira. #AsBrabas foi orgulho. Mas sabemos que propósito não pode ficar só na hashtag. Ou os critérios se aplicam todos os dias, principalmente quando custa caro dizer não, ou campanhas exibindo boas causas não funcionam.

Corinthians, a torcida decorou o discurso. Falta ao clube decorar a prática.

Postei, recentemente, um artigo no Linkedin, sobre Futebol e Patrocínio que levanta a questão sobre o papel do patrocinador. Vale a leitura: https://shre.ink/G0mK.

 

#Insights

  • Cláusulas contratuais não substituem a estratégia de comunicação. Nos dois casos do patrocínio da Fatal Fans, o ponto crítico central não foi a legalidade do contrato, mas sim a percepção pública sobre a marca;

  • O risco reputacional não é gerenciado só pelo contratante. No caso do Operário, a própria Andressa Urach ampliou a crise ao provocar manifestantes, mostrando que a comunicação do patrocinador pode fugir do controle do clube;

  • A reação rápida e assertiva limita danos. O Rio Branco rompeu o contrato poucos dias após a repercussão da investigação e evitou que a marca do ex-parceiro aparecesse no momento de maior visibilidade do time;

  • Fundamental avaliar o risco reputacional da empresa patrocinadora, assim como mapear seus porta-vozes e embaixadores, e não apenas considerar a sua legalidade formal;

  • O monitoramento dos dados deve ser constante, pois permite identificar o momento exato em que um parceiro começa a gerar ruído, antes que a imprensa ou uma investigação “apitem a falta”.

  • Ter um propósito claro e real é a maior defesa em momentos de crise.

 

Patrocínios importam.

Mas a avaliação do parceiro, a leitura do contexto e a agilidade e assertividade da resposta podem evitar um cartão vermelho reputacional.

 

Ficha Técnica

Este relatório foi elaborado pelo time LVBA de Inteligência da Informação, Marketing e Design, a partir de informações públicas, com uso da ferramenta de monitoramento Talkwalker.

 

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