2020 termina, mas os aprendizados pela Diversidade e Inclusão apenas começaram

Não sei você, mas acredito que nunca falamos tanto sobre diversidade e inclusão, pelo menos na “bolha” em que vivo.

Pessoalmente, estou muito feliz por ter atuado este ano pela implementação do #EncontroLVBA para discutir temas de D&I na agência em que trabalho. Este passo inicial, mas fundamental, me faz querer continuar aprendendo cada vez mais. Assimilei muita coisa e aproveito para compartilhar algumas reflexões abaixo:

  • Respeitar as diferenças sempre foi essencial.

E para além do ambiente de trabalho, cada pessoa pode e deve ler, ouvir e se colocar no lugar de quem é considerado diferente. Negar e evitar o assunto não é mais opção.

  • Vivemos em sociedade. Quem não sabe conviver com o “diferente” deve mudar sua postura.

Ainda mais em espaços públicos (o próprio nome do espaço já diz que é para todo mundo). Uma pessoa com crenças, religião, identidade de gênero, orientação sexual, cultura e valores diferentes incomoda? Nesse caso, quem precisa se adequar não é quem incomoda.

  • Mais do que nunca é necessário que marcas tenham um propósito claro, que suas ações sejam condizentes, visem um legado e sejam úteis para uma causa.

Aproveitar assuntos da vez, como por exemplo “Black Lives Matter”, para apoiar a causa com diversos posts nas mídias sociais, sendo que na empresa há mais profissionais brancos, não há profissionais negros em cargos de lideranças e há disparidade de salários entre executivos brancos e negros em cargos semelhantes, é tiro no pé. Melhor do que fingir apoio a uma causa é mudar os valores internos. Para só depois pensar em entrar no debate externamente.

  • Os valores que temos e a nossa realidade de vida são nossas. Não representam o todo, nem são verdades absolutas.

Agora que compartilhei alguns aprendizados pessoais que servem para qualquer um dos pilares sobre diversidade e inclusão, seguem dicas de conteúdos que me ajudaram nesse começo de caminhada.

  • Seja antirracista:
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> Comece lendo esse manual de palavras racistas e as elimine do seu vocabulário AGORA!

> É sucesso de vendas, merecido. Pequeno Manual Antirracista da Djamila Ribeiro.

> Esse filme maravilhoso faz pensar MUITO sobre negritude e mais: Emicida: Amarelo É tudo para ontem”.

  • Linguagem inclusiva e neutra:
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> Em dúvida se deve usar X, @ ou E? Primeiramente, use o bom senso. Não adianta embarcar “na onda” se sua empresa não é inclusiva internamente e seu público nem acordou para esse tema.

Quer apoiar essa causa? Em vez de alterar as letras finais das palavras, é possível tornar a sentença neutra. Mas, se optar pela linguagem inclusiva, use o E, pois é mais acessível para deficientes visuais.

Para entender melhor, confira o Manual Prático de Linguagem Inclusiva, criado pelo André Fisher.

  • Sobre vícios:

Vício é doença, não frescura. A Parte 1 do episódio especial de Euphoria me fez pensar muito em como vemos e tratamos viciados em nossa sociedade. Você não precisa necessariamente ter assistido a primeira temporada para procurar o episódio completo desta obra prima (dica, tem na HBO GO):

 

Para finalizar, uma constatação que me doeu muito aceitar: nascemos e crescemos sim em uma sociedade que discrimina o que foge ao padrão estabelecido como aceitável ou correto. Então, ainda que não racional e intencionalmente, discriminamos o diferente com base em nossos valores e crenças.

O importante é reconhecer isso, aprender e evoluir. E, acima de tudo, esquecer em 2020 aquela famosa estrutura de sentença usada normalmente para tentar escapar de polêmicas dentro de qualquer tema de Diversidade e Inclusão: “Homofóbico, eu? Imagina, não sou homofóbico. Tenho até amigos que são gays”. Quem diz esse tipo de frase só confirma a acusação. Em vez de tentar se defender, peça desculpas imediatamente e procure, realmente, entender o que gerou o mal estar.

Considere o diferente, assimile, mude. Respeite e inclua. Construa pontes em vez de muros.

Ótimo 2021 para nós! 

Acabou o mês da Consciência Negra. E agora?

Uma reflexão sobre inclusão de pessoas pretas no mercado de trabalho e representatividade em ações de comunicação

2020 está sendo um ano de grandes desafios. Alguns novos, como a pandemia da Covid-19; outros já velhos conhecidos nossos, como o racismo estrutural. E este foi o tema central do mês de novembro, quando é celebrado o Dia da Consciência Negra (20). A data tem como objetivo discutir a importância de pessoas pretas na sociedade brasileira e se tornou feriado oficial em decreto de 2011 (antes tarde do que nunca).

Contudo, além de tudo que 2020 está nos fazendo passar, um dia antes do “20 de novembro”, presenciamos o episódio brutal de assassinato do soldador João Alberto Silveira Freitas por dois seguranças brancos do Carrefour, em Porto Alegre (RS). E não. Não foi um caso isolado. O grupo carrega um histórico de descaso com a vida. Por conta de mais este caso, perdeu mais de R$ 2 bilhões em valor de mercado e foi alvo de revoltas populares. Mas ainda fica a sensação de impunidade. Afinal, nada disso se equipara ao valor de uma vida. Inevitavelmente, o episódio acalorou os debates sobre vidas pretas e seu lugar na sociedade.

No âmbito positivo, novembro foi um mês, como de costume, de grandes eventos, principalmente no ambiente corporativo, ainda que virtual, sobre a importância da igualdade racial e da inclusão de pessoas pretas no mercado de trabalho. Afinal, diversidade e inclusão são pautas do momento e, de acordo com a pesquisa da McKinsey, fazem com que as equipes gerem 21% mais resultados que empresas sem pluralidade de pessoas. Sim, muitas vezes, a mudança na mentalidade se dá visando o lucro, mas já é um passo. Ainda assim, estamos longe de viver na pele a diversidade e inclusão de verdade, isso é quase que utópica. Mesmo com todas as ações que promovem diversidade, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 64% das pessoas desempregadas são pretas; brancos recebem 45% a mais; e pretos ocupam menos de 30% dos cargos de liderança.

Gosto sempre de, neste momento, lembrar do antigo comercial de Margarina, com a família “perfeita”, branca, heterossexual, tomando café da manhã. Este já foi o padrão de representatividade lucrativo. Hoje, em comunicação, por exemplo, é o que chamamos de “o que não fazer” quando é desejado representar a população brasileira. E isso é um avanço!

Mas e agora que acabou novembro, qual o próximo passo?

Ainda falando do último mês, tive a honra de participar de um evento muito interessante chamado Afro Comunica, que foi uma parceria da Universidade São Judas com a Associação Brasileira das Agências de Comunicação (Abracom), por meio do Coletivo Enegrecer, da própria universidade. O objetivo foi debater sobre os desafios do mercado das agências de comunicação para pessoas pretas. O desafio de entrar e, principalmente, o de ser ouvido, respeitado e de poder levar diversidade às ações de comunicação, que podem impactar milhares ou milhões de pessoas.

Foi interessante ser ouvido, claro. Mas mais ainda, foi enriquecedor conhecer outras histórias e ver como todas têm um ponto em comum: a dificuldade de, em pleno 2020, ter boas oportunidades, reconhecimento profissional e sensação de pertencimento. Uma visão otimista que deixo aqui é a de que, para ações de comunicação/marketing, não levar representatividade em consideração é o famigerado “tiro no pé”. E só uma equipe plural, com diversidade, de fato, pode gerar ações mais representativas. As vivências únicas de cada pessoa podem contribuir para grandes impactos positivos e posicionar marcas dentro do padrão realmente representativo da população.

Se quiser conferir o debate Afro Comunica na íntegra, ele está disponível aqui.

De tudo isso, algo fica muito claro: o racismo estrutural existe, neguem as autoridades brancas ou não. E combater algo tão enraizado e prejudicial vai além do ambiente corporativo. Mas é uma excelente forma de começar. Agora que o mês da Consciência Negra passou, o que as empresas podem fazer? Bom, tudo! Gerem oportunidades para pessoas pretas. Ouças pessoas pretas. Permitam que cargos de liderança sejam ocupados por pessoas pretas. Se o Programa Trainee da Magazine Luiza para pessoas pretas, por exemplo, foi reconhecida como reparação histórica e gerou ainda mais valor à marca, por que não “magaluzear” mais as empresas? Todos saem ganhando.