O que é notícia hoje? Vale o questionamento.

22/08/2017 por Elisandra Escudero

Tenho acompanhado, cada vez mais, pautas que saem na “grande imprensa” sendo debatidas e até questionadas em outras plataformas e mídias.

Convenhamos, o mundo atual anda um tanto quanto chato e cheio de “mimimi” sobre o que pode ser falado, como deve ser abordado, etc e tal. Até aí, tudo bem. Sabemos que existe o grupo do feminismo, do machismo, do a favor disso e do contrário àquilo, e todo tipo de opinião, claro. Porém, o que me chama mais a atenção atualmente são os temas que viram notícia na tal “grande imprensa” e que geram outros tantos conteúdos em outras mídias tão relevantes.

Na qualidade de profissional de comunicação, lidamos com esse questionamento – aqui digo meus colegas de profissão e eu – diariamente. O que é notícia hoje? Tudo e nada ao mesmo tempo, se analisarmos friamente essa questão.

Como gestores de comunicação sempre questionamos nossos clientes sobre os temas que eles nos trazem como notícia, fazendo aquele papel de “advogado do diabo” mesmo para entender se aquele assunto interessa a um determinado nicho ou a grande massa, se há um fato inédito, se o público leitor daquele veículo vai ser impactado por aquele assunto, se tal tema terá relevância para a vida das pessoas. Bom, isso é um exercício diário e constante para quem trabalha com comunicação corporativa.

Tendo dito isso, me deparei com um post que ilustra bem o que estou falando no texto acima e que foi publicado no Huffpost Brasil, discutindo uma matéria veiculada na revista da Folha de S. Paulo (06/08) com a seguinte reportagem ipsis literis: “Está pensando que a vida dos pais é só trabalho e cuidar da cria? Eles também batalham para colocar em prática seus hobbies, como cruzar oceanos atrás de um show de heavy metal, fazer longas caminhadas pelo Nepal e guardar uns minutinhos para desfrutar do jardim”: https://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2017/08/1907231-conheca-pais-que-conciliam-filhos-e-hobbies-como-escalar-o-himalaia-e-ir-a-shows-do-iron-maiden.shtml

Nada contra a tal matéria, que traz histórias de pessoas que conciliam tudo e ainda a paternidade. UAU!!! Mas, aqui o que eu quero expor é, isso realmente é uma pauta interessante que mereça ser publicada em um veículo como a Folha, mesmo em uma data comemorativa, como o Dia dos Pais? E como resposta, exponho essa outra pauta aqui com o seguinte trecho na íntegra também: “Minha timeline está cheia de feministas e mulheres em geral indignadas com a matéria de Dia dos Pais da Folha de S.Paulo e fui ver do que se trata, pensando que fosse mais uma polêmica sobre homões da poha que não fazem mais do que sua obrigação”. https://www.huffpostbrasil.com/2017/08/09/a-disparidade-entre-maternidade-e-paternidade-conceito-e-expect_a_23072830/

Sem entrar no mérito de análise das duas matérias, até porque abre um parêntesis aqui eu tive um PÃE (que foi pai e mãe) da poha, pois ele criou duas filhas (minha irmã e eu) sozinho – depois da morte da minha mãe -, abrindo mão de se casar novamente, se aposentando antecipadamente e tudo mais que um PAIZÃO faria para cuidar de suas crias. Mas, vamos lá, voltando ao tema. Por que vocês acham que essas pautas viraram reportagens? O que de fato é importante analisarmos aqui são: as histórias desses homens realmente merecem destaque e são de fato relevantes para outras pessoas? Acredito que não, porque o efeito foi até contrário, levou a uma certa “ira” por se assim dizer de muitas mulheres, gerando outro post sobre um tema bem mais pertinente e atual. “É preciso muito pouco para ser considerado um paizão. E é preciso muito pouco para ser considerada uma mãe de m**da”, diz a autora Tayná Leite, que é Coach, palestrante, advogada, feminista e mãe do Cacá.

Vale aqui então uma reflexão e até uma provocação para todos nós de comunicação sobre o que estamos gerando e até consumindo de informação. Será que tem alguma relação o fato de a grande imprensa estar dando espaço para histórias cada vez mais “questionáveis” e pouco interessantes, com o fato de as vozes que surgem de influenciadores e de pessoas comuns, terem gerado muito mais empatia e engajamento do público? Precisamos pensar mais nisso, inclusive as próprias empresas quando querem divulgar seus temas tão relevantes.